CASA PODEROSA DOS FILHOS DE YEMANJÁ

CASA PODEROSA DOS FILHOS DE YEMANJÁ

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

OLOKÚN Dos arquivos do Obá Oriaté Miguel “Willie” Ramos, Ilarí Obá

OLOKÚN


Dos arquivos do Obá Oriaté Miguel “Willie” Ramos, Ilarí Obá


Entre os Lukumi, Olokún é o orixá dos oceanos, donde toda vida se originou, e o zelador das suas riquezas e mistérios.

Como o oceano que oculta incontáveis mistérios, esta divindade é considerada um dos mais desconcertantes orixás do panteão Lukumi.

Um provérbio do odu Irossun—o principal odu do dilogun em que Olokún se manifesta—enuncia que “ninguém sabe o que descansa no fundo do mar”.

Por extensão, nenhum ser humano poderá alguma vez compreender verdadeiramente a magnitude e a força vigorosa desta misteriosa divindade.


Não há consenso quanto ao sexo de Olokún.

Em algumas áreas da África Ocidental, Olokún é considerado masculino, ao passo que em outras é feminino.

Esta controvérsia também chegou a Cuba.

Em muitos pataki, Olokún é descrito como um rei em um palácio subaquático e com muitas esposas.


Várias qualidades de Yemojá, Ajé Saluga e de Osun são todas consideradas mulheres de Olokún.

E ainda, o renomado etnólogo cubano Fernando Ortíz cai nesta ambivalência quando descreve Olokún, tanto como “Senhor do Oceano” quanto uma “deusa” no mesmo parágrafo e na mesma página.

Hoje em dia, tanto os Babalawôs, quanto os olorixás letrados, expostos à recente e massiva disponibilidade de literatura de antropólogos e outros estudiosos da cultura ioruba, insistem em que Olokún é masculino.

Alguns olorixás insistem em que Olokún é assexuado, hermafrodita ou andrógino.

Não obstante, as linhagens cubanas donde as principais tradições a respeito de Olokún se originaram, sustentam obstinadamente que este orixá é feminino.

Esta controvérsia também se reflete nos cantos para Olokún e nos rituais associados com sua consagração.


A despeito da caridade geral e da boa natureza de Olokún, este orixá é uma força a ser temida quando contrariada.

Um número de patakis se refere à ira de Olokún.

Em um destes mitos, narrado no odu Ejiogbé Odi, descreve a insatisfação deste orixá com a maneira em que Olorun distribuiu os domínios entre os orixás.

O argumento era que, desde que foi consignado a Olokún governar sobre os oceanos, e estes formam a maior parte do planeta, Olokún era mais poderoso que Olorun e assim era o Ser Supremo.

Para demonstrá-lo, os oceanos começaram a criar ondas irrefreáveis e ominosas que tratavam de afogar a Terra e seus habitantes.


Tomando conta de Olokún


Olokún tem se tornado um orixá tão popular, que hoje mora em muitos ilês.

Esta expansão tem causado certo dano muito lamentável ao orixá, notadamente a causa dos olorixás mecanizados de hoje, que não brindam aos seus omós o conselho necessário sobre a maneira apropriada de cuidarem de Olokún.


Uma vez que um indivíduo tenha recebido a Olokún, muitos aspectos de seu comportamento deverão ser adaptados ou mudados.

Em princípio, Olokún deve ser mantido numa área da casa onde haja pouco tráfego, preferentemente dentro de uma vitrine, se é que o indivíduo não possui um quarto em separado para os orixás.

Olokún deve estar coberto.



Oshabí tinha preferência pela roupa branca, ainda que alguns olorixás, que receberam Olokún através dela, insistam em que a mesma lhes tenha dito que cubram Olokún com um manto feito de tiras ou tecidos de diferentes cores.

Em ambos os casos, Olokún deve ter também uma cortina de mariwô precedendo o lugar onde seus paramentos são mantidos, ou posta diretamente sobre o vaso do assentamento.

Em caso algum Olokún deverá se tornar um ornamento na sala-de-estar de alguém, como muitas vezes é o caso!


Está proibido permanecer diante de Olokún inapropriadamente vestido ou trajando roupas pretas, havendo uma exceção: durante um ebó do odu Ejiogbé meji.

Nunca alguém deve se dirigir a Olokún em roupas íntimas ou que deixem o corpo exposto.

Ademais, devemos estar seguros de estarmos ritualmente “limpos” antes de nos dirigirmos a este orixá.

Do mesmo modo, praguejar e usar linguagem de baixo calão são ofensivos para este orixá.


A água de Olokún deverá ser trocada uma vez ao ano.

É importante recordar que não devemos fixar a vista diretamente dentro do vaso de Olokún imediatamente depois de tê-lo descoberto.

A água antiga pode ser despachada na entrada da nossa casa ou ser usada para o banho.

Muita gente usa a água de Olokún como remédio, especialmente para aliviar febres muito altas, passando um pano que tenha sido submerso na água, pelo corpo do indivíduo afetado.

Se ao trocar a água, notarmos que as ferramentas necessitam de limpeza, então devemos proceder cuidadosamente no quarto da seguinte maneira, preferentemente isolados.

O conteúdo deve ser esvaziado em uma bacia limpa e bem lavada com água fria.

O vaso também deve ser lavado por dentro e por fora.


Uma vez que isto tenha sido feito, as ferramentas são recolocadas dentro do vaso.

Olokún nunca poderá ser lavado dentro da pia de lavar louça, como muitas vezes tenho visto, nem deve ser limpo na frente daqueles que não são iniciados em seu culto.




Alguns esclarecimentos adicionais necessitam ser feitos aqui.


Recentemente, mais e mais olorixás têm consagrado Olokún em conjunção com ordenações.

Este é um erro grave, eis que as cerimônias de Olokún devem ser realizadas numa atmosfera mais serena e não podem ser levadas a cabo em conjunção com este ou outros orixás.

Se por alguma razão o iyawô tenha que receber a Olokún e, surpreendentemente, não o tenha feito até então este lhe deverá ser entregue antes da ordenação, mesmo que isto requeira sua consagração na véspera da cerimônia.


Outro item é o cesto com oferendas que é preparado durante a consagração de Olokún.

Esta cerimônia é denominada por muitos como agbán cesto, ainda que o termo seja usado para se referir ao ritual realizado para Olokún e a um similar para Babaluaiyé.




Depois do falecimento de Oshabí, muitos olorixás preguiçosos começaram a usar alimentos crus e frutas para o agbán, ao invés das tradicionais comidas cozidas que Oshabí e Obá Tero ofereciam a Olokún.

Este costume se tornou especialmente popular em La Habana e foi levado aos Estados Unidos como uma tradição.

Em realidade, o agbán de Olokún deve ser feito com ekó, ekuru arô, akará e semelhantes, e não com tubérculos crus, feijões e carnes sem cozinhar, e assim por diante.

Tenho visto massas, flocos de milho (corn flakes) e guloseimas em pratos para um agbán para Olokún! Oshabí teria considerado isto uma heresia!


Dentro da mesma tessitura, deve se frisar que o agbán de Olokún não é uma cerimônia de limpeza.

Pelo contrário, é uma oferenda.



O devoto que tenha Olokún consagrado para si, envia este agbán para Olokún como uma oferenda grandiosa, muito similar às caravanas de agbán enviadas pelos estados subjugados ao palácio de Oyó na antiga Iorubalândia.

O agbán é uma oferenda simbólica, rogando a Olokún de tal modo que o indivíduo sempre venha a ter uma peça de roupa com que cobrir o seu corpo, um prato de comida na mesa, um fogão onde cozinhar e um teto sobre a sua cabeça.

A pessoa que recebe Olokún não deve ser limpa, nem ninguém presente na cerimônia, com o conteúdo dos pratos, tal como é feito cada vez mais e mais hoje em dias.

Isto é feito somente no caso do agbán de Babaluaiyé e alguns outros ebós usualmente feitos para Elegbá.

Os pratos são colocados ao redor do cesto e deixados ali para repousarem por algum tempo.

Depois disto, são apresentados ao indivíduo e as oferendas são depositadas dentro do cesto.


As oferendas para Olokún são levadas ao oceano.

Ao receber o orixá, a pessoa responsável para levar o agbán ao mar é o indivíduo que o recebeu, eis que se trata de uma oferenda que esta pessoa realizou para Olokún, e um sinal de devoção e louvação.

E ainda, o olorixá está obrigado a instruir o omó receptor sobre como apresentar esta oferenda apropriadamente, de maneira que isto não seja ofensivo para outrem.

Muitas vezes esquecemos que vivemos numa sociedade muito heterogênea e especialmente num país centrado no cristianismo, onde muitos dos nossos co-cidadãos vêem uma religião africana como um câncer repugnante e deplorável que deve ser extirpado.
 A maneira de se entregar apropriadamente um ebó e um adimu são um caminho do qual, como comunidade religiosa, ainda temos muito que percorrer.

As sacolas de plástico que usamos para cobrir nossos cestos, evitando assim que se sujem, não formam parte da oferenda e não pertencem ao mar, como para que sujemos a água e danifiquemos o nosso meio ambiente.

Tampouco às garrafas de vidro ou às taças de plástico que uma vez contiveram mel ou melado de cana, ou aos pedaços de obi que são lançados em nossas cerimônias, lhes compete flutuar na água ou jazer no fundo do mar. Nem Olokún, nem qualquer outro orixá poderão ser agradados pela nossa falta de senso comum e sensibilidade.


Quando o oceano não estiver à disposição, como é o caso de localidades como Jovellanos, em Cuba,e de cidades como Chicago, nos E.E.U.U., então o lago, o rio ou o canal poderão substituí-lo.

Olokún é a divindade dos oceanos, mas por extensão, também é o orixá de todas as águas. Um dos aspectos mais belos da nossa tradição religiosa é a habilidade de nos adaptar quando tratamos com obstáculos intransponíveis.


Os adimus de Olokún


Os adimus - oferendas de comida— preferidos de Olokún são porco frito e tiras de bananas verdes fritas.

Em adição, Olokún gosta de akará—bolos fritos de feijão fradinho, de ekuru arô—um tipo de pão de forma, feito de feijão fradinho cozido ao bafo dentro de folhas de bananeira, egbojá—um prato feito com milho moído, porco e/ou camarões secos, peixe defumado coberto com molho de tomate e cebola ou com um molho verde feito com salsinha e outros condimentos; melancias e melões de todo tipo, uvas vermelhas, melado de cana, côco grelhado com melado de cana e canela, gofio—bolas de milho torrado ou de farinha de trigo com melado de cana e canela ou mel e boniatillo—um tipo de pudim feito com batatas doces brancas.

Pode haver outras variantes regionais que tenham sido adaptadas com o

Lukumi é a primeira designação pela qual o povo ioruba foi conhecido pelos estrangeiros, antes da adoção do termo Ioruba no século XIX.

Lukumi (lucumí) é o termo aceito em Cuba.

Através do texto, tenho utilizado o termo “Ioruba” para me referir tanto aos iorubas no continente africano, quanto de forma generalizada para as Américas.

“Lukumis” teria sido utilizado para se referir especificamente à Cuba e aos primeiros registros coloniais nas Américas, que a eles se referem desta maneira, e à migração posterior a 1959 de olorixás cubanos para regiões das Américas e da Europa, onde a religião deitou novas raízes.


[2] Ortíz, Fernando. Los bailes y el Teatro de los Negros en el Folklore de Cuba (La Habana: Editorial Letras Cubanas, 1981) 452.


[3] Cabrera, Lyfia. La Laguna Sagrada de San Joaquín, 2ª ed. (Miami, Ediciones Universal, 1993) 11.


[4] Para saber mais sobre os adimus de Olokún, vide Ramos, Miguel W. Adimu: Gbogbô Tén’unjé Lukumí (Miami, Eleda Publications, 2003).





Nenhum comentário:

Postar um comentário