O Paó (bater palmas) vem como tudo dentro
do rito de uma interação e respeito de energias.
O Paó chama à presença, invoca;louva o SER alulidido
ou um elemento de àse;
Como todos os elementos do culto são eficazes entre
o àiyé e o òrun.
Toda a formulação de som nasce como uma sintese,
como um terceiro elemento provocado pela interação
ativa de dois tipos de elementos genitores: a mão ou a
baqueta percutindo no couro do tambor, a vareta batendo
no corpo do agogo, o pêndulo batendo no interior da campainha àjá,
a palma batendo no punho.
O som é conduzido por Èsù.
A palavra como o som é atuante, porque é condutora do poder do àse,
do hálito, da saliva, etc.
O paó é louvado à tudo, principalmente Èsù (Orixa), o grande condutor de energias.
A sequencia a quantidade faz alusão sempre ao movimente
-3- uma
sequencia de som repetido 3 vezes também fazendo referência aos
"9 Orun", contido em Ìgbá-odù.
Eis o fundamento do Paó...
Para existir um Ilê (casa de candomblé), é necessário um Babalorixá ou Yialorixá, competente, iniciado dentro da lei, seguindo rigidamente ao longo dos seus anos de iniciação suas normas e preceitos, pois somente assim terá o aval, o consentimento, o asé necessário para desenvolvimento das suas atribuições, atributos esses consignados por seu iniciador no nosso plano material, e seu consequente desempenho com resultados positivos junto à sua comunidade, que só serão obtidos com a aquiescência dos orisás que os monitoram de forma permanente, permitindo ou até mesmo interrompendo uma situação de resultados realmente significativos, quer seja na sua leitura esotérica ou no trato com o povo.
Como ninguém planta de manhã para colher à tarde, um Ilê com Asé, é estruturado com estudo, aprendizado, dedicação, humildade, respeito e principalmente, conduta ritual, a medida que vai "merecendo" os orisás vão lhe "dando" ao ponto de se obter uma estrutura suficiente, para o início das atividades de um novo Ilê.
Em alguns casos, até mesmo por falta de um controle e fiscalização, por parte de uma Confederação legitimada, decorrente da não organização dos adeptos, muitos por conveniência, tem casas que são verdadeiros comércios (não pelo fato de cobrarem algum benefício financeiro para sua manutenção e sustento) pelo exagero dos valores pedidos, se aproveitando do medo e da inocência de algumas pessoas, outras instituem total libertinagem por conveniência de seus comandantes e comandados, outras pela sua ignorância ou mal iniciação, em vez de ajudarem acabam causando um mal maior, e, infelizmente somos abrigados a conviver com essas situações que denigrem como um todo a nação candomblecista; Mas como Osalá é sublime essas barreiras de alguma forma são superadas, não colocando em risco a religião yorubá, e tão somente fornecendo subsídios à algumas alas de algumas Igrejas, que se aproveitam desses casos de exceções para se enaltecerem e nos escrachar, com objetivos de "angariar" mais fiéis, visando uma melhoria de arrecadação, mas como Deus é único, de alguma forma nos protege e seguimos adiante.
As pessoas que frequentam uma casa de candomblé, basicamente são: praticantes, simpatizantes e usuários.
A procura por esta religião tanto para prática como consulta, muito é em virtude de um atendimento pessoal e individualizado, em que as pessoas tem uma participação ativa, naquele instante a pessoa não é uma a mais numa multidão, mas o centro das atenções, de uma forma que possa canalizar toda sua fé, para obtenção do seu objetivo, e frise-se, a fé é fundamental e necessária para qualquer intento, onde cada um deve fazer o melhor possível a sua parte, no caso de quem está sofrendo a ação, comparecer fisicamente com o material no dia e hora marcado, quando solicitado ou orientado para tal, e fazê-lo com muita fé e dedicação.
A hierarquia
Observância de uma hierarquia rígida é o instrumento que mantém permanentes as instituições, como o Estado, o exército, a religião... sua tradução literal expressa: ordem e subordinação dos poderes eclesiásticos, civis e militares; graduação de autoridade, correspondente às várias categorias.
Em princípio, é o tempo de iniciação religiosa que conta, vale o ditado - antiguidade é posto - seguido do Oye (cargo) que a pessoa ocupe; o mais velho é sempre o mais velho, não importa que mais moço tenha seu cargo religiosos de maior importância; exceção única, feita ao Babalorisá ou Yialorisá, que por poder absoluto, está acima de todo e qualquer outro.
De casa para casa ou de nação para nação, variam os cargos e seus nomes, e um ou outro detalhe da escala hierárquica, Via de regra são: - abians - por exprimir uma vontade de participar, ou escolhido a fazer parte da comunidade, recebe do babalorisá, um fio de contas "lavado" (colar ritual, símbolo do orisá do neófito), ou tenha se submetido a um bori (dar "comida" à ori , cabeça física e astral); participam no Ilê, ajudando com tarefas civis, nas festas, na limpeza e arrumação e decoração do barracão, preparo de café e almoço, alguma ajuda na cozinha ritual, onde são preparadas as oferendas dos orisás e demais tarefas afins.
- Iyawô - o iniciado, também chamado de adoxú (aquele que levou adoxum ), neste período não lhes são revelados segredos, ficará recluso alguns (que variam de 7 a 21, conforme sua nação), num lugar chamado roncó ou camarinha, um quarto fechado, com algumas esteiras, é confiado aos cuidados do seu ojúbonà (pai-pequeno ou pai-criador) que o auxiliará e ensinará alguns comportamentos durante todo período da iniciação, o qual juntamente com o iniciado, manterá resguardo neste período.
Em um primeiro momento é feita a raspagem do cabelo, símbolo de submissão e humildade e preparo do oxú (o alto da cabeça, a moleira astral, chacra principal do corpo humano) para as obrigações principais.
Neste período o iniciado tem como objetivo principal receber asé, a qual será responsável, pelo seu aumento e manutenção, através da rígida observância, da sua conduta ritual.
Completados sete anos de iniciação, os iyawôs , após fazem sua "obrigação" ritualística que os 7 anos requer, tornam-se ègbónmí (egbomi - "irmão mais velho"), e tem direito a Ter seu próprio Ilê com a benção e autorização do seu babalorisá, bem como Poderá fazer parte do grupo dos Oloiês.
- Oloiês`-, podem adoxús ou não-adoxús; os OGÃS, que quer dizer - chefe - podendo em alguns casos, ter seus otuns e osis ; os postos de AXOGUN, ALABÊ, OGOTUN, AFICODÉ, IPERILODÉ, ELEMOXÓ, ILÊIGBÓ, PEJIGAN em paralelo a IYAEGBÉ, IYAKEKERÉ (mãe pequena), BABÁKEKERÊ (pai pequeno), YIÁMORÔ, AJOIÊ ou EKÉDE, DAGÃ, SIDAGÃ, em casa de Sangô, o cargo da KOLABÁ, a IYÁ SIHA (relacionado a um ato litúrgico de Osalá), IYÁEFUN(BABÁ), IYÁLOSSAIN (BABÁ), IYÁBASÉ.
Mais especificamente no ILÊ AXÉ OPÔ AFONJÁ tem os OBÁS DE SANGÔ, seis da direita (otuns), com voz e voto; seis da esquerda (osis) somente com voz. - Agbá - duas condições a um só tempo: a) antiguidade iniciática (mais de 50 anos); b) antiguidade cronológica (mais de 60 anos).
- Iyálorisá - (Iyálasé)/Babalorisá.
Uma fila hierárquica, a exemplo da que acontece nas "Águas de Osalá" assim e procede: Iyálorisá (babá), seguindo os demais Adoxú, quer sejam oloiês ou não, de acordo com o tempo de iniciação, sempre o mais velho na frente do mais moço, sendo a segunda da fila a(o) Iyáegbé (mais velho(a) adoxú do axé e segue a fila de acordo com o tempo de iniciação, atrás do último adoxú, alternando-se ogans e ajoiés, de acordo com o tempo de confirmação, atrás virão ao abians.
O mais velho é tudo; sempre se é iyawô para o imediato "mais velho", no próprio "barco" (mais de um iniciado recolhido ao roncó para iniciação) de iyawôs encontramos a figura do mais velho, chamado dofono , e sucessivamente dofonitinho, fomo, fomotinho, gamo gamotinho... ao dofono é aquele a quem se pede a benção em primeiro lugar, devendo, este, contudo, ser o primeiro a servir seus demais irmãos mais moços.
É muito importante o mais velho se colocar no difícil papel; é o responsável - sem que muitas vezes saiba - pelo futuro do seu mais novo, seus anseios, esperanças, fantasias...
A quizila e as proibições
A quizila é uma forma de reação negativa que atinge as pessoas, quer seja fisicamente, causando algum mal estar, ou, na vida pessoal gerando algum "atrapalho" ou perda; e, acontece quando comemos ou fazemos algo que não devemos; todos os orisás tem suas quizilas, e como filhos devemos respeitá-las, por exemplo: não devemos comer determinadas comidas, que são oferecidas aos orisás, pelo fato que, quando oferecemos à eles esta comida, eles "transformam" as energias daquela comida, em energia positiva para nós, das quais estamos precisando constantemente, portanto é comida do orisá, não nossa.
A quizila, em alguns casos, é como se fosse uma "alergia" natural, que comemos alguma coisa, e imediatamente temos uma reação alérgica, porém a mais perigosa é aquela que não sentimos de imediato alguma reação, o que erradamente leva alguns filhos de santo, usarem, um sistema, Ah!
Eu comi, não fez mal, não terá problema, aí é que se enganam, pois a reação virá quando menos esperam, atingindo de alguma outra forma.
Os iniciados sabem o que devem respeitar, se não o fazem é por serem descomprendidos, evidente que há casos de desconhecimento, por uma má iniciação, e muito mais valor terá, se gostarmos daquilo que não podemos, pois é muito fácil se evitar, o que não gostamos.
As proibições mais comuns, são com relação a determinadas comidas, temperos, folhas, bebidas, cores...
A Constituição brasileira de 1988, consagrou de forma inédita que os direitos e garantias expressos na Constituição "não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte." (art. 5°, § 2°).
Assim, os direitos garantidos nos Tratados de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil integram a relação de direitos constitucionalmente protegidos.
A Constituição Federal consagra como direito fundamental a liberdade de religião, prescrevendo que o Brasil é um país laico. Com essa afirmação queremos dizer que, consoante a vigente Constituição Federal, o Estado deve se preocupar em proporcionar a seus cidadãos um clima de perfeita compreensão religiosa, proscrevendo a intolerância e o fanatismo. Deve existir uma divisão muito acentuada entre o Estado e a Igreja (religiões em geral), não podendo existir nenhuma religião oficial, devendo, porém, o Estado prestar proteção e garantia ao livre exercício de todas as religiões.
A Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.
O inciso VII afirma ser assegurado, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva.
O inciso VII do artigo 5º, estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.
O artigo 19, I, veda aos Estados, Municípios, à União e ao Distrito Federal o estabelecimento de cultos religiosos ou igrejas, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.
O artigo 150, VI, "b", veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a instituição de impostos sobre templos de qualquer culto, salientando no parágrafo 4º do mesmo artigo que as vedações expressas no inciso VI, alíneas b e c, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas.
O artigo 120 assevera que serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar a formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais, salientando no parágrafo 1º que o ensino religioso, de matéria facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
O artigo 213 dispõe que os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei, que comprovem finalidade não-lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação e assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades. Salientando ainda no parágrafo 1º que os recursos de que trata este artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para o ensino fundamental e médio, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública na localidade da residência do educando, ficando o Poder Público obrigado a investir prioritariamente na expansão de sua rede na localidade.
O artigo 226, parágrafo 3º,assevera que o casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
Constituição Federal
CONSTITUIÇÃO FEDERAL: Art. 215º - Inscrição .1"
" O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileira e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional".
CONSTITUIÇÃO FEDERAL: Art. 15º Incrição 6"
" É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegudo o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma da lei, a proteção do local de cultos e suas liturgias"
Esta saudação e esse itan nos remetem à questão de que existem muitos esu, todos mantendo a mesma natureza, multiplicação que se fez necessária para que houvesse a devida especialização no processo de povoação do universo e para que esu se constituísse efetivamente na “menor unidade de informação” do sistema.
Em particular à terra, um itan do odu ogbe irete, mostra agba esu liderando-os na chegada ao aye (mundo concreto) e designando-os para os diferentes propósitos.
O itan relata que olodunmare criou esu como um ebora (divindade criada) muito especial, que esu tem que existir com tudo e fazer frente à cada pessoa e à cada orisa.
Este itan, além de nos trazer a idéia da individualização e consequente especialização de esu junto à terra, em particular, e à criação, no sentido mais geral, nos remete a um trecho de um itan do odu otura meji que diz, “ esu disse que quem tiver prosperidade na terra tem que separar a parte de esu; que quem quiser procriar na terra não pode deixar esu para trás; que quem quiser prosperidade na terra não pode deixar esu para trás.
Esu pergunta à ori se ele não sabe que esu é o mensageiro de deus?”
Se falamos que esu é o “controlador dos destinos” imediatamente somos remetidos ao fato de que esu é assim o “controlador dos caminhos” e lembramos a associação que se faz de esu e as encruzilhadas, representação por excelência da multiplicidade de caminhos e da geração e da imposição de alternativas e possibilidades.
Destino e encruzilhadas estão, sem dúvida, intimamente ligados.
Ao mesmo tempo que está em todos os lugares e em todas as formas criadas, esu está simbolicamente representado na encruzilhada, onde assiste e acompanha todas as escolhas feitas pelos homens na sua caminhada pela vida.
A propósito, um itan do odu ejiogbe meji diz em certo trecho: esu foi e sentou-se na encruzilhada.
Todos os que estavam vindo até olodunmare teriam que dar algo para esu.
E todos os que estavam voltando deviam dar algo para ele.” e ainda, “os babalawo jogaram para as três mil e duzentas divindades, quando eles foram para a casa de olodunmare para receber seus poderes. Isso é porque esu é mais grandioso do que todos os seniors.
Este último trecho nos remete à relação entre o esu e os orisa.
É preciso reforçar a idéia de que esu cumpre para com os orisa e divindades a mesma natureza de papel que cumpre em relação aos seres humanos.
Assim, ele os assiste, acompanha, regula e corrige; fazendo sobre eles e seu trabalho “relatórios” periódicos à olodunmare.
Muitos são os itan odu que narram a respeito deste especial papel e a consequente senioridade de esu sobre os demais orisa.
Deixando de lado o itan do odu ose-otura que relata como esu assumiu a senioridade sobre os demais orisa, podemos nos referir, em particular, à um itan do odu ogunda meji que diz, referindo à uma conversa dos babalawo com osanyin, após a briga deste com esu, você foi brigar com esu odara, que é mais forte do que você.
Você não sabia que esu é o líder dos orisa?
Não há nenhuma divindade que desafie esu.
Em razão desse desafio feito à esu nada podemos fazer por você.
· que orisa, por sua dimensão cosmogônica, pelas suas características de princípio dinâmico associado à criação, a olodunmare e a todas as coisas, poderia servir de base à grande resistência que se fazia necessária frente à dominação, seja física, seja cultural e religiosa, que a escravidão empunha, do branco sobre o negro?
· que orisa, mais que esu, podia garantir a sobrevivência da identidade e da cosmovisão negra na américa europeizada e cristianizada?
· quem, senão esu, para lembrar ao dominado o pacto estabelecido por deus, olodunmare, com a sua criação, aí incluído o grupo humano, do qual, naquele momento, os africanos achavam-se aviltados pela escravidão e pela barbárie branca.
· quem senão esu para lembrar ao branco dominador, teólogo do racismo, do preconceito e da discriminação, sua culpa perante o seu próprio deus e a sua alma?
Era preciso aviltar, prostituir, degradar completamente esu.
Era preciso reduzi-lo em suas dimensões no universo.
Era preciso colocá-lo em confronto com deus e com os homens.
Era necessário inseri-lo em uma visão maniqueísta, de contrários, de oposição entre bem e mal.
Era importante destituí-lo de capacidade de zelo e guarda sobre os dominados, instrumento possível de resistência e luta.
Era fundamental obscurecer seu papel dialético, seu princípio dinâmico e vitalizador da criação, negar-lhe propósito e fundamento na ação divina.
Ora, sabe-se que olodunmare derrama continuamente sobre a sua obra o ase que garante permanência e realização e que esu é o guardião e transportador desse elemento essencial aos processos de individuação no sistema e para a personalização do homem na relação de filiação com olodunmare.
Sem dúvida, a teologia católica sobre a áfrica e os africanos sustentaria essa questão.
Artigo publicado na revista thoth – escriba dos deuses, janeiro/abril 1997, brasilia/brasil
FONTE:http://blog.ori.net.br/?p=694
- degradação dos arquétipos nesse encontro de divindades africanas e santos católicos, encontro em que os primeiros são colocados sob a tutela ou a dimensão dos segundos, os arquétipos relacionados a cada orisa terminam por degradar-se e até, muitas vezes, prostituir-se, num processo pleno de foco permeado pelos referenciais da moral católica.
Assim, quando possível, despoja-se os orisa de suas características de vitalidade e sensualidade; quando não, coloca-se sua dimensão num quadro pré-conceituoso e moralista que altera profundamente o espaço que ocupam e o papel que desempenham no âmbito de uma cosmovisão rica e completa.
Nesse processo, sem dúvida deliberado, de retirar dos escravos o suporte religioso e cultural capaz de assegurar-lhes a resistência efetiva à dominação do espírito, os orisa foram deformados e tornados pequenos.
Exemplo? Esu.
Quem é este homem das encruzilhadas, muitas vezes bêbado, sempre malandro e disposto a desviar os homens dos perfeitos caminhos?
Quem é essa figura diabólica, instrumento do mal, tão próximo dos homens pecadores?
Quem é essa imagem de satã, inimigo de deus e terror dos homens de bem?
O andarilho, o avesso à ordem e às estruturas?
Aquele ser perigoso, sempre disposto a colocar o mundo em perigo e virá-lo de cabeça para baixo?
É este mesmo esu que é o senior entre os orisa?
É este mesmo esu que é o líder dos orisa?
O primogênito do universo, a primeira estrela a ser criada?
A criança querida de olodunmare?
Porque é exatamente assim que esu é chamado em muitos itan do corpo literário de ifa, estrutura do conhecimento oral depositária da revelação da religião, conjunto riquissimo de conhecimentos esotéricos e registros históricos da milenar tradição de alguns povos africanos.
Inspetor de olodunmare, desde o princípio dos tempos; o porteiro de deus.
Esses são mais alguns de seus títulos na essência da nossa religião.
É este esu que eu conheço. Aquele de quem dizemos: esu odara, aquele que abre os caminhos e que atrai a prosperidade.
Ou mais, é esu que apoia incansavelmente seu filho.
Quando entramos em contato mais profundo com as rezas, as louvações e saudações feitas a esu somos remetidos, necessariamente, a uma análise mais profunda do orisa esu do que aquela que costumamos encontrar nas oportunidades em que assistimos pessoas falando sobre ele.
Somos remetidos à uma visão de esu enquanto guardião e fiscalizador de tudo e de todas as coisas dentro da criação. Sua íntima associação com o criador, como aquele que trabalha ao seu lado, é transparente nos títulos com que é nomeado. Podemos inferir, por eles, que esu garante o andamento ou o desenvolvimento do projeto de olodunmare para a criação, assegurando a continuidade e a dinâmica de todos os processos com vistas a primazia da ordem em todas as realidades.
Confirmando este enfoque, podemos nos remeter a que: a caminhada de cada homem, o trabalho e os deveres de cada divindade estão sob regular controle de olodunmare e “relatórios” lhe são feitos periodicamente. Nessa função aparece esu, seu inspetor geral… Olodunmare executa seu projeto através de seus ministros, assiste e acompanha sua obra, objetivamente define seus princípios e seu movimento.
E mais, através de seus ministros faz acontecer, regula, acompanha, corrige e mantém seu projeto. Seus ministros, especialmente ela omo osin, orunmila e esu, os demais orisa, são sua extensão e maneira como exerce sua onisciência, sua onipresença e sua onividência na sua obra.
Em um itan do odu ose-otura encontramos esta questão claramente colocada quando vemos que orunmila quando chegou ao orun (mundo invisível) para descrever à olodunmare o que estava se passando na terra, lá encontrou esu odara que, aos pés de olodunmare, fazia seu relatório.
Desta forma, quando olodunmare recebeu orunmila, ele já conhecia os problemas que se passavam na terra com os orisa.
Para cumprir efetivamente seu papel, esu está presente em todos os espaços, está junto a cada ser vivo, forma “um” com cada divindade ou orisa.
Assim também está presente nas cidades, nas vilas, em cada rua e em cada casa, exercendo seu papel enquanto princípio dinâmico, de comunicação e individualização de todo o sistema. Mais que isso, esu são os olhos, os ouvidos e a presença de olodunmare em todo o universo.
Dois itan, em especial, nos contam sobre esu.
O primeiro, narra que, no princípio dos tempos nada existia além do ar.
Olorun era uma massa infinita de ar que quando começou a movimentar-se, lentamente, a respirar, levou uma parte do ar a transformar-se em massa de água, originando orisanla, o grande orisa funfun.
O ar e a água moveram-se conjuntamente e uma parte transformou-se em lama. Dessa lama originou-se uma bolha, a primeira matéria dotada de forma, um rochedo avermelhado e lamacento.
Olorun admirou essa forma e soprou sobre ela, insuflando-lhe seu hálito e dando-lhe vida.
Essa forma, a primeira dotada de existência individual, um rochedo de lacterita, era esu – esu yangi. Por esse itan depreende-se que esu é o primeiro nascido, o primogênito do universo. É também assim o terceiro elemento, aquele nascido da interação entre ar e água e, assim, orunmila, em um itan do odu otura meji que fala da vinda de ori para a terra, chama esu de a terceira pessoa.
O segundo itan, este do odu ogbe owonrini, relata a multiplicação ao infinito de esu yangi por ação de orunmila, em um processo que permitiu que esu povoasse todo o universo e definiu-lhe condições para exercer o papel de inspetor geral.
Ao mesmo tempo, conforme o itan também relata, esse processo gerou o contrato entre orunmila e esu que define para esu o papel de “executor” dos projetos e “controlador” dos destinos, aquele que garante o cumprimento das prescrições de ifa/orunmila.
Esu yangi é chamado pelos iorubá esu yangi – oba baba esu, ou seja, esu yangi, rei e pai de todos os esu.
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Em 1873, uma oração pela conversão dos povos da áfrica central para a igreja católica, escrita pela secretaria da sagrada congregação das indulgências, dizia assim: rezemos pelos povos muito miseráveis da áfrica central que constituem a décima parte do gênero humano, para que deus onipotente finalmente tire de seus corações a maldição de cam e lhes dê a benção que só podem conseguir em jesus cristo, nosso deus e senhor: senhor jesus cristo, único salvador de todo o gênero humano, que já reinas de mar a mar e do rio até os confins da terra, abre com benevolência o teu sacratíssimo coração mesmo à almas mui miseráveis da áfrica que até agora encontram-se nas trevas e nas sombras da morte, para que pela intercessão da puríssima virgem maria, tua mãe imaculada e de são josé, tendo abandonado os ídolos, se prostrem diante de ti e sejam agregados à tua santa igreja.
Todas essas questões da teologização católica se encontram muito bem levantadas por julvan moreira de oliveira em seu projeto de pesquisa apresentado como parte dos exames de seleção ao programa de mestrado em educação, na faculdade de educação da usp, em outubro de 1995. Ora, estão aí, como podemos ver, as raízes da ideologia escravista e racista que legitimou a escravidão e a transformou no maior acontecimento, em extensão e tamanho, da história de toda a humanidade.
Vejam, a partir da visão teológica que aqui colocamos se estabelece a relação entre religiões africanas, religiões dos dominados, e a religião branca, européia e cristã dos dominadores, seja na américa e, particularmente, no brasil; seja na áfrica durante os processos colonizadores. Do encontro, mais do que do embate, dessas duas culturas, dessas duas cosmovisões, desses dois troncos religiosos, surge o sincretismo. Na verdade, seja aqui, seja na áfrica, o branco é aquele que primeiro quis aproximar as divindades africanas, para ajustá-las e adaptá-las ao catolicismo, em particular, e ao cristianismo, em geral. Era preciso, sem dúvida, que, junto com a introdução do africano na religião católica, através do batismo obrigatório, se processasse o esvaziamento de sua identidade e a fragilização de suas possibilidades de resistência cultural.
Penso que o sincretismo, diferentemente do que propõem muitos estudiosos e líderes religiosos, constituiu-se mais no desenvolvimento de uma estratégia branca de dominação do que em um movimento de salvaguarda de valores e de resistência à dominação cultural e religiosa por parte dos negros. Assim, não posso deixar de pensar que o sincretismo resulta em perdas significativas dos valores e da essência da cosmovisão africana. Representou redução da capacidade dos africanos de resistir à dominação e não garantiu-lhes valia e identidade durante o processo de escravidão.
Na medida em que a abolição não trouxe aos afro-descendentes possibilidades efetivas de exercício da cidadania, podemos dizer que os resultados negativos do sincretismo religioso persistem até os dias de hoje, trazendo para a maioria da população brasileira, constituída de afro-descendentes, auto-estima rebaixada, auto-imagem negativa e dificuldade de definir e assumir sua identidade. Podemos enumerar como consequências mais significativas do sincretismo:
- perda do caráter monoteísta das religiões de matriz africana durante a formação do processo sincrético ocorreu nas religiões afro-descendentes, quase que de forma geral, uma perda da sua base monoteísta. Isso aconteceu de tal maneira e se extende no tempo que, ainda hoje, muitos sacerdotes da religião dos orisa consideram sua religião como politeísta e os orisa como deuses, trazendo, por consequência, uma visão interna da religião que a reduz à dimensão de seita e uma visão externa que a define como panteísta, primitiva, bárbara e fetichista. Perde-se, assim, sem dúvida, a dimensão do sagrado, o status de universalidade e de revelação que lhe são próprios e a respeitabilidade que ela merece ao lado das grandes religiões da humanidade. Retirar da religião seu caráter monoteísta significa, antes de mais nada, retirar das diversas nações africanas sua identidade, sua força de unidade e coesão;
- perda das respostas sociais de inserção do indivíduo no sagrado com o sincretismo obrigou-se os africanos escravizados, para que pudessem gozar de algum, ainda que mínimo, reconhecimento social, a lançar mão dos sacramentos da igreja católica para sua inserção no sagrado. Assim, até hoje, as comunidades-terreiro não atendem seus adeptos e filhos com liturgias próprias para essas questões, como o “batizado” e o casamento. Rituais como o ikomojade (batizado), o isomoloruko (cerimônia de dar o nome à criança), o igbeiyawo (casamento), do âmbito da prática religiosa iorubá, por exemplo, perderam-se no tempo e hoje poucas são as casas que ainda os praticam. E mesmo os rituais de passagem vida-morte terminam por serem complementados ou, muitas vezes, substituídos pela liturgia católica;
- redução da valia e grandeza dos orisa os orisa são espíritos puros criados por olodunmare como princípios universais no processo da criação. Sua comparação com o santos católicos, pessoas que viveram vidas segundo os valores da igreja católica e que, porisso mesmo, após sua morte foram santificados, reduz o tamanho, reduz a dimensão dos orisa. Isso, sem dúvida, termina por contribuir para a construção de uma representação distorcida e, reduzindo a dimensão das divindades, endossa mais uma vez o estereótipo dos africanos como inferiores, contribuindo assim para afetar a auto estima e a auto-imagem dos afro-descendentes;
Associa-se a isso que seus valores, sua ancestralidade e suas raízes religiosas são reduzidos e subordinados aos valores e formas do branco e sua cosmogonia é absorvida e dominada pela cultura do senhor de escravos;
- reprodução de alguns modelos da escravidão nas relações de poder e autoridade nas comunidades-terreiro até hoje, em algumas comunidades-terreiro, as relações de autoridade reproduzem modelos da relação senhor-escravo, em uma condição que ultrapassa em muito as dimensões do princípio da senioridade, do awo (segredo) e do sagrado.
Estabelece-se entre sacerdotes e iniciados, ou postulantes à iniciação, todo um desenho de relações que, muitas vezes, avilta o homem, desrespeitando-o e sujeitando-o a mecanismos impróprios para a plenitude da vida religiosa;
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Parte 1
Oração a Esu
Ojumo ti mo eji ogbeyonu mo ki eji ogbe mi, eji ojumo ti mo mo ki
Legbara ojumo ti mo o mo fun mi mo pe esu odara ran se ojumo ti mo mo ni o gbe mi leyin ki o ba le mu ire mi ko mi aje
Amanheceu, eu louvei esu, o meu eji ogbe já amanheceu e eu louvei
Legbara o dia amanheceu e amanheceu para mim eu chamei, eu pedi favores à esu odara amanheceu e eu pedi para que ele me carregasse, para que ele me levasse ao encontro da minha sorte.
A degradação da imagem de Esú
Artigo escrito por falagbe esutunmibi – josé tadeu de paula ribas
O autor é psicólogo, babalawo e mestrando em psicologia do desenvolvimento na usp é membro da associação brasileira de ethno-psiquiatria, é fundador e atual presidente do ioc – instituto orunmila de cultura.
É também presidente da fitaco – federação internacional da tradição africana e culto aos orixás.
Não acredito que seja possível falar em esu, seja na sua forma arquetípica popularmente conhecida, seja nos seus fundamentos e desenho originais, sem que se faça, pelo menos, uma rápida incursão por dois temas: o primeiro, diz respeito à vinda dos africanos e das religiões africanas que deram origem ao candomblé atual para o brasil, através da diáspora forçada que o processo de escravização negra representou e diz respeito também ao que ocorre durante a história da colonização européia sobre a áfrica e a correspondente cristianização da cultura africana.
O segundo, e é natural que de tudo isso ele decorra, refere-se a questão do sincretismo e suas consequências.
Nos fins do século xv inicia-se o que pode ser considerado como tráfico negreiro.
As primeiras experiências se fazem na ilha da madeira e porto santo. Posteriormente os africanos são levados também para açores e cabo verde. Por meados do século xvi, são trazidos para o brasil.
Com o apoio de quase todos os governos da europa, dá-se início à uma forma de mercado que faculta grande margem de lucro – a compra de escravos nas costas da áfrica, o seu transporte e a sua venda como mercadoria. Vários países se empenham, então, nesta atividade e muitas rivalidades surgem da competição entre a frança, a inglaterra, a holanda e portugal. Na américa, recentemente descoberta, os grandes latifúndios exigem a cada dia mais braços vigorosos para o trabalho na lavoura.
Os negros trazidos da áfrica para o brasil pertenciam a diversas culturas. Este contingente, segundo artur ramos, citado por bastide, pode ser dividido em quatro grupos:
· sudaneses – correspondem aos negros trazidos da nigéria, do daomé e da costa do ouro. São os iorubás, ewe. Os fon e os fanti-ashantis (chamados mina), krumanos, agni, zema e timini.
· civilizações islamizadas – especialmente representadas pelos peuls, mandingas, haussa, tapa, bornu e gurunsi.
· civilizações bantos do grupo angola-congolês – representadas pelos ambundas (cassangues, bangalas, dembos) de angola, congos ou cambindas do zaire e os benguela.
· civilizações bantos da contra-costa – representadas pelos moçambiques (macuas e angicos). Pelo tráfico negreiro chegaram ao brasil milhares de africanos na condição de escravos que se espalharam de norte à sul da colônia. Provenientes de vários pontos da áfrica, muitas vezes não falavam a mesma língua. Haviam guerreado entre si pertencendo a diferentes nações e cultuavam as divindades de suas tradições, diferentes, também, umas das outras. Em comum tinham apenas a condição social de escravos, o aviltamento decorrente desta situação e cosmovisões de matriz comum que definiam suas relações sociais e os contextualizava dentro da criação.
Assim, os africanos trouxeram consigo sua religiosidade.
Quando os primeiros africanos chegaram ao brasil, a coroa de portugal criou uma lei que determinava, no seu primeiro artigo, que todos deveriam ser batizados na religião católica. Caso o batismo não fosse realizado em um prazo de pelo menos cinco anos, as peças deveriam ser vendidas e a importância relativa a esta transação comercial reverteria para a coroa. Outros artigos importantes desta lei, tais como o prazo de escravidão por um período não superior a dez anos, foram sendo, pouco a pouco, alterados, de modo que, na verdade, a lei jamais foi cumprida, salvo no que diz respeito ao batismo cristão. Essa legislação atendia, mais do que nada, às relações entre o governo português e a igreja católica, e à teologização da igreja católica a respeito da áfrica, dos africanos e da escravidão.
A tese de que a áfrica era a terra da maldição, é defendida, então, por vários teólogos cristãos. O pe. Antônio vieira, em seus sermões (xi e xxvii) afirma que a áfrica é o inferno donde deus se digna retirar os condenados para, pelo purgatório da escravidão nas américas, finalmente alcançarem o paraíso.
O mesmo pe. Antônio vieira, no sermão xiv do rosário à irmandade dos pretos de um engenho, elaborado em 1633, ao comentar o texto de são paulo i cor 12,13 – o entende no sentido de que os africanos, sendo batizados antes do embarque da áfrica à américa, deviam agradecer à deus por terem escapado da terra natal, onde viviam como pagãos entregues ao poder do diabo.
E diz: todos os de lá, como vós credes e confessais, vão para o inferno onde queimam e queimarão durante toda a eternidade (vieira, antônio, 1981). Em outro sermão ainda, vieira diz que, para ele, o cativeiro do africano na américa não é senão um meio cativeiro, pois atinge só o corpo.
A alma não está mais cativa, ela se libertou do poder do diabo que governa a áfrica e o escravo no brasil deve tentar preservar essa liberdade da alma, para não cair de novo sob o domínio dos poderes que reinam na áfrica (idem).
FONTE:http://blog.ori.net.br/?p=694
ESU A PEDRA PRIMORDIAL DA TEOLOGIA YORUBA
ESU OTA ORISA
Esu a pedra fundamental do Orisa
ESU OFI OKUTA DIPO IO
Esu transforma o sal em pedra
1. "O PRINCIPIO ERA A PEDRA"
Em todos os momentos da vida dos afro-descendentes que cultuam Orisa, a terra é o elemento mais importante a ser reverenciado e, em conseqüência disso, a pedra, o fruto da condensação da terra, a desagregação particulada e formadora do microcosmo Yoruba.
Essa singularidade pode ser vista na gênese Yoruba, amplamente documentada, por diversos autores.
Olodunmarê após um tempo imemorial de inércia resolve criar o mundo, e sua primeira criação é a pedra primordial chamada por ELE de Esu Yangi e, posteriormente, de Esu Obasin, cultuado até os dias de hoje em Ile Ifé.
Pode-se dizer que sem pedra "Ota" não há Orisa.
KOSI OKUTA
KOSI ORISA
"Sem pedra
Sem Orisa"
KOSI ESU
KOSI ORISA
"Sem Esu
Sem Orisa"
Todo Orisa tem que, obrigatoriamente, ser assentado em uma pedra ou em algum material que dela tenha vindo; exemplo: o ferro em que se assenta Ogun é a transmutação da pedra, transformada em ferro por intermédio do fogo. Dessa forma pode-se dizer que Ogun é assentado na pedra.
Outro aspecto interessante é que o corpo humano é composto de vários elementos, e entre eles um dos mais importantes é o barro modelado por Ajala, onde, posteriormente, é inserido por Obatala, o Bara, o ESU do movimento.
Outro aspecto de grande importância relacionado à terra é o Ikomojade (imposição de nome ou batismo). Nele o pai pega a criança e coloca o pé dela sobre a terra fofa, especialmente preparada para o momento, recitando o seguinte verso de Ifa:
Yoruba
ILÉ
A O GBE OMO, AO FI ESE OMO NAA TE ILE,
A O WA WURE BAYI PE,
ILE REE O,
ILE OGERE,
ILE NI A NTE KI A TO TE OMI,
A KI NBINU ILE KI A MAA TE,
BI O BA NRIN NILE KI OMO ARAYE MA BINU RE,
A KI NBALE SOWO KI A PADANU,
GBOGBO OHUN TI O BA DAWOLE LORI,
10.ILE AYE YI,
11.KO NI PADANU.
Português
Terra
Os pais pegam a criança e colocam o pé dela sobre a terra, iniciando a recitação. Eles chamam o nome da criança e falam:
1. (Nome da criança) Aqui está a terra,
2. A terra que está espalhada pelo universo,
3. É nela que se pisa primeiramente,
4. Antes de se pisar na água.
5. Ninguém que tenha ódio da terra,
6. Priva-se de pisar nela.
7. Quando você anda sobre a terra,
8. Os seres humanos não terão ódio de ti.
9. Todos que fazem negócios com a terra lucram com ela,
10. Tudo que você se propor a fazer na sua vida,
11. Não será em vão, você lucrara na vida.
Portanto, é muito claro que Esu foi criado por OLODUNMARÊ, da matéria primordial e divina da qual, posteriormente, ELE fez todos os Orisa. A mesma matéria que daria forma à toda existência divina, assim como toda a humanidade que, um dia, Ikú "a Morte" devolverá à esta lama primordial.
Assim, Yangi é o primeiro ser criado da existência e passa a ser o símbolo primal dos elementos criados.
Yangi é conhecido como "Esu Agba”, o Ancestral primordial, e seus assentamentos mais antigos e tradicionais eram simples pedras de laterita vermelha, colocadas no chão, onde eram feitas suas oferendas e sacrifícios.
Em alguns lugares, como a Orita Meta ou a Encruzilhada de Três caminhos, a laterita vermelha está cercada por 7, 14 ou 21 pedaços de ferro enferrujados.
Na cidade de Ile Ife, pode-se ver o assentamento de Esu Yangi como o descrito acima.
Para se chegar a casa de OBATALA, entra-se em uma rua que vai exatamente até a entrada, e acerca de 10 metros antes da entrada, a rua principal abre-se em duas outras ruas laterais, formando um (Y) . No meio do vértice do (Y) está a casa de OBATALA, e na ponta do vértice o assentamento de Yangi, uma montículo de cimento armado com uma laterita fincada no alto. **
Yangi é por excelência o símbolo da existência diferenciada e, em conseqüência disso, o elemento dinâmico que leva à propulsão, à mobilização, à transformação e ao crescimento.
Ele é o principio dinâmico de tudo que existe e do que virá existir.
2. OS MÚLTIPLOS NOMES E FUNÇÕES DE ESU
Um mito relata como, em função de seu poder, Esu se descontrola, e começa a devorar toda a preexistência, sendo então obrigado por Orunmila, após uma longa perseguição, a vomitar tudo de volta.
Tendo sido cortado em milhares de pedaços, transforma-se no + 1, ou em 1 multiplicado pelo infinito. Neste caso, ele é Esu Okoto, o Caracol agulha, cuja estrutura óssea espiralada parte de um ponto único, abrindo-se para o infinito, e nos dá a idéia do crescimento, da evolução e da multiplicação, tendo-se tornado o símbolo da restituição e da recomposição, tornando-se Oba Baba Esu, Esu agbo, o Rei e o Pai de todos os Esu, gerados por seus pedaços.
Durante muitos anos conviveu-se com uma pretensa superioridade cultural, racial, religiosa na África e na região dos Yoruba que provocou guerras étnicas, fato que repercute ainda nos dias de hoje.
A suposta ação evangelizadora desarticulou sofisticadas estruturas religiosas, imprimindo aspectos negativos e demoníacos à imagem de Esu que, ainda hoje, habitam o universo religioso e pratico dos mais renomados Baba/Iya.
A perda dos valores primais africanos foi causada, sobretudo, pela escravidão, e posteriormente pela miscigenação com as seitas espíritas cristãs, permitindo assim que os mais sérios seguidores do Orisa ressaltem os aspectos negativos dos demônios, referindo-se a Esu como:
Exu Lucifer, Exu Tranca Rua das Almas, Exu sete poeiras do inferno, Exu Rei das sete encruzilhadas, ou mudam seu sexo, Exu Pomba Gira ou Exu Maria Padilha.
Os nomes e atributos deste importante Orisa do panteão Yoruba não permitem interpretações errôneas como as perpetuadas pela inércia e ignorância de pseudos experts em cultura Yoruba.
Nomes
Atributos
ESU YANGI
O primeiro da criação, a laterita vermelha
ESU AGBA
Aquele que é o ancestral
ESU IGBA KETA
O dono da cabaça, o Igba Odu
ESU OKOTO
O dono da evolução, o caracol.
ESU OBASIN
O pai de todos os Esu
ESU ODARA
O Esu da felicidade
ESU OJISE EBO
O Esu que leva as mensagens ao Orisa
ESU ELERU
O Esu que leva o carrego dos iniciados
ESU ENUGBARIJO
O Esu que trás a prosperidade
ESU ELEGBARA
O Esu que detém o poder da transmutação
ESU BARA
O Esu dono do movimento do corpo humano
ESU OLONAN
O dono de todos os caminhos
ESU OLOBÉ
O dono da faca ritual
ESU ELEBÓ
O Esu que recebe as oferendas
ESU ODUSO
O Esu que vigia os oráculos
ESU ELEPO
O Esu do azeite de dendê
ESU INA
O Esu do fogo (saudado no Ipade)
Poderia-se fazer uma lista imensa dos nomes de Esu ancestrais cultuados no Brasil e África, mas esse exercício é desnecessário no momento.
O mais importante é destacar as funções desses Esu ancestrais nos rituais:
Esu Yangi:
É o princípio de tudo, a própria memória de Olodunmarê, seu criador.
Esu Agba ou Esu Agbo:
É o nome que mostra sua ancianidade; ele é o mais velho e, por conseqüência, o pai que é retratado no mito em que Orunmila o persegue através dos nove Orun.
Esu igba keta
É o terceiro aspecto mais importante de Esu que está ligado ao número três, a terceira cabaça onde ele é representado pela figura de barro junto aos elementos da criação.
Esu ikorita meta:
É ligado ao encontro dos caminhos ou a encruzilhada; o encontro de três ruas ( Y ).
Esu Okoto:
É o representado pelo caracol agulha, mostra a evolução de tudo que existe sobre a terra,
E está ligado ao Orisa Aje Saluga, o antigo Orisa da riqueza dos Yoruba.
Esu Obasin:
É por este nome é conhecido e cultuado em Ile Ifé.
Esu Odara:
É o que, se satisfeito através do sacrificio, traz a felicidade ao sacrificante.
Esu Ojisé ébó:
É ele que observa todos os sacrifícios rituais e recomenda sua aceitação, levando as súplicas a Olodunmarê.
Esu Eleru:
É o que leva os carregos dos iniciados (Erupin)
Esu Enugbarijo:
É o que devolve a todos o sacrifício em forma de benefícios.
Esu Elegbara:
É o todo poderoso que transforma o mal em bem, cujo poder reside na transformação das coisas.
Esu Bara:
É um dos mais importantes aspectos de Esu, pois ele é o Esu do movimento do corpo humano, infundido no corpo pré-humano, ainda no Orun por Obatala, sendo "assentado" no momento da iniciação, junto com o Ori e o Orisa individual.
Esu Lonã:
É o senhor de todos os caminhos do mundo.
Esu Olobé:
É dono do obé (faca), tem que reverenciado ao começar todos os sacrifícios, onde a faca é necessária.
Esu Élébó:
É o carregador de todos os Ébo.
Esu Odusô ou Olodu:
É ele que tem seu rosto retratado no Opon Ifa, e vigia o Babalawo para que este não minta; é o que vigia os oráculos (Opélé-Ikin-Erindilogun)
Esu Elepo:
É ele que recebe o sacrifício do azeite de dendê.
Esu Inã:
É um dos aspectos mais importantes deste Esu primordial, é presidir o Ipade, sendo o dono do fogo. É a Esu Inã que os Babalorisa/Iyalorisa se dirigem no começo do Ipade, uma das mais importantes cerimônias do ritual afro-descendente religioso:
E Inã mojuba
Inã Inã Mojuba Aiye
Inã mojuba
Inã Inã Mojuba Aiye...etc.
Outra forma de se dirigir a Esu, e que causa certa confusão, é quando seus acólitos a ele se dirige por seus EPITETOS que , por serem mais comuns, transformaram-se erroneamente em nomes: Exemplo;
Esu Tiriri
Esu Akesan
Esu Lode
Esu Barabo
Esu Alaketu
Esu Ijelu
Esu Bara lajiki
Esu Marabo...etc.
DA PEDRA A PEDRA
A ação repressiva dos cristãos europeus e, posteriormente, latino-americanos sobre os africanos, escravos e seus descendentes forjou o sincretismo entre os Orisa e os Santos Católicos.
Consequentemente, Esu e o diabo cristão na sua forma mais primitiva, teologicamente.
Assim sendo, a idéia de um Esu reelaborado pelos cristãos e, essencialmente maléfico e tenebroso, é inconcebível na Teologia e na cosmovisão Yoruba, que não tem um “inferno´” declarado, e os homens não são punidos a post mortem.
Muito embora, existam lendas e mitos populares onde Esu é retratado como manhoso, trapaceiro ou encrenqueiro. Se Esu for reverenciado com o Ebo designado nada disso será verdadeiro e a sua suposta imagem de malignidade, decorrente dessas lendas, cairá por terra.
Na verdade, Esu é o Executor Divino, punindo aqueles que descumprem o sacrifício prescrito, recompensando aqueles que o fazem.
Ele nada faz por conta própria. Está sempre servindo de elemento de ligação entre OLORUN e Orunmila ou então servindo aos Orisa.
Segundo a Teologia Yoruba, nenhum ser divino pode punir um Ara aiye "ser da terra", diretamente, sem a consulta a Olodunmarê.
Diversos Itan Ifa nos dão conta que Esu também é encarregado por OLORUN para vigiar os Orisa no Aiye. Isso só pode ser feito porque ele é imparcial no seu papel de Executor Divino.
É por isso que todos os devotos de todos os Orisa sacrificam para Esu, por recomendação de Ifa, nos tempos de dificuldades, buscando dessa forma sua intermediação com Olodunmarê.
E, para que os Babalawo não se excedam ou mintam na prescrição dos ébó, o próprio Esu na qualidade de Odusó sempre estará presente no jogo, cuidando para que o Iwa "caráter" do consulente e do Babalawo não sejam maculados.
Esu reporta-se diretamente a OLORUN e mantém um inter-relacionamento com os Orisa e com os Egungun "ancestrais".
Ele não é vingativo e nada executa por sua própria conta, apenas cumpre fielmente as ordens de OLORUN, conforme os ditames do Iwa contido no Ori individual, destino escolhido por cada Ori no Ipori Orun `Lugar em que o ser humano é preparado.
E necessário, o mais depressa possível, esquecer, "desumbandizar" e "deskardekizar" as religiões de matriz africanas, pois não se pode viver com o paradigma de bem e mal, inexistente nessas religiões.
Em síntese, transmutar, teologicamente, a pedra primordial em pedra angular sobre a qual se sustenta a cosmografia tradicional Yoruba.
Oga Gilberto de Esu
Ésú Akérèkóro
Nome civil: Gilberto A Ferreira
Nome religioso: Oga Gilberto de ESU
Olosun do Ile Iya Mi Osun Muiywa
Presidente do Conselho de ética do International Congress of Orisa and Culture.
Pesquisador da Tradição Yoruba.
Articulista e consultor de assuntos afro-brasileiro para diversos órgãos nacionais e internacionais, com artigos publicados no Brasil e exterior.
Presidente fundador do Afosé Ile Omo Dadá (SP).
Consultor de assuntos Afro-Brasileiros para a Fundação Palmares.
Paradigmas para um novo Candomblé
versão 2
revista e ampliada
NÃO
Gostaria que minha resposta pudesse ser assim tão simples, mas, vou ter que escrever dezenas de linhas para explicar.
Quero esclarecer que o texto não foi feito para neófitos.
Foi feito para pessoas que conhecem e que não conhecem o Candomblé.
Este é um assunto que deve ser discutido pelas pessoas.
O Candomblé esta se tornando uma religião mais conhecida e aceita. Não completamente popular, mas, sem duvida nenhuma, infinitamente mais difundida do que a a antiga prática localizada em guetos étnicos.
Minha posição é que ele já deixou de ser identificado com uma etnia, apesar de ainda ter pessoas que usam a religião junto com sua causa étnica.
Quando saiu do escopo da polícia civil e virou religião aceita pelo estado, a população em geral começou a ter acesso a rica teogonia e teologia que esta religião possui. A religião Yoruba é muito rica se comparada com o padrão de religiões africanas, mas, se destaca mesmo se comparada com outras religiões do mundo ocidental e oriental. Ela esta no primeiro pelotão, com louvores.
Assim as pessoas se impressionam bastante com o que passam a conhecer. Infelizmente conhecer mal. Mas isso não é nada inédito. O Candomblé sofre hoje o mesmo que sofreu catolicismo antes da compilação, e depois popularização, da bíblia. É uma teologia pouco conhecida e entendida. Sim, o Candomblé precisa de uma Bíblia, um corão, uma torá ou um mahabarata, porque senão fica sendo representado pela imaginação criativa de um monte de gente e não pelo que ele é de fato. Pior, muitas vezes pelo comportamento inadequado de pessoas que dizem representar seus valores.
O que existe mesmo é gente desinformada falando bobagem, fingindo saber, insinuando conhecimento. É gente que não consegue explicar nada. Entendam, não estou falando em erudição, não, estou falando de saber a religião que dizem professar.
É muito fácil você responder a primeira pergunta sobre uma coisa. Mais difícil é você responder a segunda pergunta (mais profunda) sobre o mesmo assunto, muito mais difícil ainda é seguir assim perguntado e respondendo. Quantos passam da segunda pergunta?
A maioria dos Babalorixás e Iyalorixás, como se auto-denominam por ai, só conseguem enrolar a primeira resposta. Vide aquele livro chamado, O Candomblé bem explicado, que é um manual para se responder, enrolando, a primeira pergunta, somente....
Olha não gosto de fazer críticas genéricas, por isso não faço fofocas, escrevo textos. Mas é importante lembrar a todos esta situação. O que eu mais vejo é pessoa se dizendo sacerdote e que não consegue sustentar uma conversa com ninguém. Que não sabe explicar o que faz. Que mistura catolicismo, espiritismo, umbanda e sei lá mais o que para falar de dogmas da sua religião e de Orixá.
É muito complicado a gente falar o que é de fato parte desta religião aqui com tanta gente fazendo o contrário. Eu ouço de vez em quando uns programas de rádio supostamente sobre Candomblé, aqui no Rio, nas rádios Metropolitana e Solimões. Lixo. Estelionatários declarados. Pessoas que se passam de Babalorixá e fazem um programa para vender amarração, feitiço, favores. Além de encherem o ouvido das pessoas com abobrinhas. A cada 1 coisa certa que eles falam tem 10 besteiras. Não é religião é apenas comércio de feitiços.
Claro que eles não são diferentes dos programas de evangélicos que disputam as mesmas rádios e horários. Assim todos os 2 grupos são farinhas do mesmo saco.
A qualificação de sacerdotes é o primeiro ponto de revisão de uma religião de verdade. O grupo que ai esta é muito mal formado ou não tem formação nenhuma. As pessoas NÃO podem acreditar mais que por uma pessoa se dizer babalorixá e ter casa aberta ela é uma conhecedora da religião e vai poder orientá-la. Se o que a pessoa esta procurando é aprender uma religião ela vai ter que ter muito cuidado.
Eu já falei somente sobre esse assunto em outro texto, mas resumidamente muitos desses tais Babalorixás inventaram cargos, não cumpriram suas obrigações, não pagaram o seu tempo de obrigações, ficaram pulando de casa em casa tomando obrigação com pessoas diferentes e não receberam o Oye de Babalorixá (isso vale para as Iyalorixás também, só não vou ficar escrevendo toda a vez as 2 palavras).
Em função disso ai não aprenderam o Camdomblé. Vou repetir não estou me referindo a erudição, estou me referindo ao básico, aquilo que a gente aprende em gotas homeopáticas frequentando a mesma casa e tendo oportunidade para conversar com pessoas mais velhas, aprendendo delas. Isso significa entender a filosofia e os valores.
Além disso a pessoa tem a oportunidade, hoje, de buscar uma compreensão maior da religião, uma coisa que nossos antecedentes não tinham. Essa busca de melhor conhecimento não é algo errado. É algo que eles não tiveram acesso e duvido que deixariam de ter se esforçado para obter esse conhecimento.
Quando uma pessoa sai pulando de casa em casa para tomar suas obrigações e também apagar o seu passado ela também perde a referência de hierarquia. Ela passa a mandar no que faz sem nenhum controle. Assim o primeiro sinal para se avaliar uma casa e entender qual e como é o vínculo da casa e da pessoa com que o fez. Para ter certeza vá na pessoa que o fez e peça referência dele. Pergunte a cronologia de obrigações. Se a pessoa não quiser responder, vire as costas e vá embora, vai ser melhor para você, acredite.
Gente a pessoa que entra em uma religião quer saber como ela é. Quer saber o que é um orixá e o que ele representa. Quer saber como a sua vida se integra no cosmo. Não adianta dizer para alguém que perguntar sobre o que é um Orixá, com aquele sorriso amarelo e os olhos no vazio, que você ama o seu Orixá. Isso é patético.
Voltando ao Candomblé universal, se o Candomblé pretende se posicionar como uma alternativa religiosa viável para as pessoas, algumas coisa devem se modificar. A primeira é acabar com esse viés caça-níqueis e se se ocupar de fato em ser uma religião.
Viés caça níquel é esta exploração monetária de jogos, ebós e obrigação. O comércio de liturgias. Isso é ridículo e nivela essa religião com o que existe de pior na sociedade.
Muitas coisas devem ser feitas. Mas, entre elas, com importância, está a questão da feitura de Orixá.
Não é verdade que as pessoas para serem desta religião tem que fazer feitura do seu Orixá. Isso acima de tudo é uma preferência do Babalorixá para pode ganhar dinheiro. Porque nada que ele coloca a mão é de graça e quanto mais pessoas amarradas á sua casa através de feituras, mais dinheiro ela vai garantir com obrigações, ebós e jogos.
O corpo das pessoas que fazem parte da casa é assim aumentado como um rebanho leiteiro que sempre vai garantir o dinheiro dele. Os clientes se somam a isso aumentando esta receita de forma variável, mas, a receita do "rebanho" será sempre garantida.
O que eu disse parece grosseiro, mas, é isso mesmo.
Este é o formato adotado na maior parte das casas de Candomblé, nos Ilê Axé. Não fiquem assustados e nem finjam espanto. Esta prática não é original do Candomblé, acontece na sociedade como um todo. Também acontece no Candomblé.
Para o Candomblé ser uma religião ela tem que começar acabando com isso. Quem sustenta um Ilê Axé tem que ser as pessoas que participam do Ilê Axé. Não podem ser transações comerciais associadas a venda de liturgias pelo babalorixá. Esta é uma prática muito pior do que instituir uma mensalidade, um dízimo (como na igreja, não como nos templos evangélicos que são apenas assaltantes) ou um rateio de despesas, como um condomínio.
Qualquer método que conte com a participação de todos será muito superior ao do Babalorixá cobrando por trabalho, porque essa não é uma pratica adequada para uma organização religiosa.
Também não podem os membros das casas serem tratados como clientes, pagando por obrigações, ebós e jogos. Essa palhaçada de dizer que é obrigado a cobrar "chão" ou "salva" ou "cobertura de anjo da guarda" são eufemismos para esconder o simples comércio.
Uma casa precisa se manter. O dirigente tem que ter obter recursos para fazer suas próprias obrigações que são consequência da sua atividade. Ele precisa também se manter. Isso tudo a religião não oferece restrição, pelo contrário.
Mas, como estamos tratando de uma casa de religião, é necessária uma distinção entre o que custa aos membros da casa manter a sua casa funcionando, e isso pode até incluir a decisão da comunidade em manter ou subsidiar o sacerdote e, dentro disso também, o subsídio que esta comunidade define que vai receber ao atender pessoas que não fazem parte da casa.
O atendimento de pessoas que não são permanentes da casa sempre foi parte das estratégias que antigas casas de Candomblé usavam para se sustentar e ao seu Egbe. O problema é a proporção que isso tomou porque estelionatários que vendiam feitiços, favores, mentiras, amarrações usando uma fachada esotérica descobriram que poderiam melhorar o seu produto podre se passando de Candomblecista.
Essa invasão maculou o modelo honesto do Candomblé.
Outro problema foram pessoas que entravam no Candomblé já contando tempo para se proclamarem Pais-de-santo e viverem desta atividade. Não eram pessoa que procuravam seguir uma vocação, elas procuravam uma profissão. Gente que não servia para nada. Não queria estudar e não queria trabalhar.
Não existe problema no sacerdote profissional. Padres são sacerdotes profissionais, remunerados pela Igreja que é mantida pelos seus fiéis. Mas este sacerdócio sofre controle e um monte restrições fazendo que, acima de tudo, tenha que existir a vocação.
Já o Pai-de-santo de beco não tem nada disso. Ninguém controla, ele faz o que quer e ainda inventa controle para outros.
O que era para ser um exemplo de humildade, ver pessoas mais velhas ou até mais bem posicionadas na sociedade, por seu valor próprio se hierarquizarem em uma casa de orixá virou um escárnio, porque pessoas despreparadas, decadentes, incapazes e mentirosas assumem um posição que não pertence a elas. Comumente são mentes psicopatas e estelionatários, desprovidos de propósito e moral abusando da fé de outros.
Por esse caso extremo, claro, porque nem todo lugar é assim e nem toda pessoa é assim, é que o Candomblé tem que reagir de forma radical a esta questão mercantil. Uma reação radical e vigorosa vai deixar de uma lado as casas séria e do outro essas pessoas.
Assim não se trata de romper com o modelo da religião que não vê problema em dinheiro, através da pratica da ajuda a simpatizantes, sustentar uma casa e sim de ser obrigado a adotar uma posição distinta em função da forma como a religião legítima foi usada por pessoas não legítimas.
O outro aspecto é o que eu iniciei este texto, o Candomblé precisa se adaptar ao processo de universalização na sociedade, preservando o que é bom e melhorando aquilo que é inadequado a este novo status. Sim o Candomblé e as pessoas do Candomblé aspiram a um status pleno de religião.
É necessário então encontrar um modelo de financiamento do Ilê Axé que seja distinto do empregado por esse grupo de estelionatários travestidos de Babalorixá, que falam de orixá, falam de nação, falam de Umbanda, falam de cigano, falam de ajé, falam de egungun, falam de amarração, falam de ebó e falam de qualquer coisa que a pessoa queira ouvir, porque elas sabem que tem muita gente tola, gente que você fala 9 coisas que ela não quer ouvir, mas se você falar 1 só que ela queria ouvir já basta.
Um outro capítulo nesse assunto é o assunto que eu comecei, antes de ter caído nesse "galho" do financiamento da atividade religiosa, que é a questão da feitura de Orixá. É claro que a feitura de Orixá se insere no financiamento da atividade dos estelionatários.
Uma pessoa que entra para o Candomblé deve se preocupar em entender a religião e como ela pode ajuda-lo a ter uma vida melhor sendo uma pessoa melhor a mais feliz.
É isso o que as pessoas procuram em uma religião. Procuram viver melhor. Ser pessoas melhores. Viverem em harmonia consigo mesmo e com sua família.
Mas o Candomblé sendo uma religião iniciática, ela oferece muitos status e a vaidades e como diria Al Pacino, a vaidade é o pecado preferido do diabo.
Quando a pessoa entra para uma casa de orixá, um Ilê Axé, ela inicia como um Abian, um simpatizante ou um crente da religião. Abian é o nome que se dá. A pessoa pode, e deve, ficar como um Abian por muito tempo, talvez toda a sua vida.
A fé não se mede se a pessoa é um abian ou um Iyawo. Fé é acreditar no divino, no Orixá e trazer isso para a sua vida de uma forma positiva, que permita a essa pessoa superar seus problemas pessoais através de aprender novos valores e uma nova forma de administrar a sua relação com a pessoas e com sua vida.
Um Iyawo é uma pessoa que passa por um complicado, sofrido e longo processo de feitura. Esse processo prepara a pessoa para poder ser um elegun do seu Orixá na terra. É através dos Elegun que o Orixá incorpora e se manifesta em uma casa para ajudar a sua comunidade, distribuindo axé para as pessoas.
Sem elegun não existe Orixá na casa e na nossa vida. Orixá não é apenas uma coisa que fica no ar e que sempre esta por ai. Não é verdade. A função do Elegun é justamente estabelecer a ponte para que o Orixá possa vir do Órun (mundo espiritual) ao Aiye (terra) e distribua o axé para as pessoas.
É por isso que uma casa de Orixá tem que ter muitos elegun e tem que ter elegun de todos os Orixás. O Elegun é uma pessoa importante e o Babalorixá não consegue tocar a sua casa sem eles. Toda a casa tem a necessidade de ter Eleguns dos Orixás e de qualidades diferentes inclusive.
Por isso um Babalorixá precisa fazer feitura em Pessoas e precisa encontrar e atrair essas pessoas dos Orixás que ele precisa.
Para ser um Elegun é necessário fazer a feitura e ser um Iyawo por 7 anos, no mínimo, como já falei em outro texto.
Para uma pessoa trocar de status de Abian para Iyawo deve existir um propósito. A pessoa tem que entender o que isso vai significar para a sua vida. A pessoa tem que saber no que isso muda a relação dela com o divino, mas, saber de fato e não, ser enrolada com mentiras.
A verdade é que o Orixá não vai gostar mais da gente porque a gente fez o Orixá. Não vai gostar mais da gente porque a gente tem um igba. Não seremos mais felizes por causa disso. Não seremos mais protegidos por causa disso.
Existem motivos que podem levar uma pessoa a uma feitura. O Ilê Axé pode precisar, a pessoa pode precisar. O pior motivo é o babalorixá precisar para alimentar a conta bancária dele.
Abians e Iyawos precisam de Bori do mesmo jeito, de ebós de mesmo jeito e de jogo do mesmo jeito. Um abian pode ter inclusive um igba. Como fonte de receita um abian pode ser tão promissor como um um Iyawo....
Ser um Iyawo não ée uma evolução religiosa. É assumir uma nova postura diante da sua religião e se comprometer com obrigações religiosas da casa e do Babalorixá. Se você busca uma religião e não esse compromisso fique como Abian sua vida toda, ai você pode ir quando quer, mudar de casa, etc...
Mas o caso é que ser um Iyawo muitas vezes é apenas uma necessidade financeira do sacerdote e uma vaidade do abian. As pessoas devem se despir de vaidade e antes de dar qualquer passo mais profundo na religião devem primeiro aprender sobre ela.
Se o Candomblé quer ser uma religião de muitos tem que se ocupar mais em se transformar em uma opção real e palatável para as pessoas. Tem que se ocupar com os seus membros e não com clientes. A gente tem que separar os Ilê Axé de verdade dos mercadores de feitiços.
Claro que é uma religião iniciática, dogmática e altamente liturgica. Mas pode continuar a ser tudo isso sem se transformar em fazer pessoas infelizes.
Acima de tudo o Candomblé tem que se ocupar em se incorporar à vida das pessoas sem que as pessoas abandonem a sua vida normal. A Fé deve se adicionar a vida das pessoas e não substituir.
Muitas liturgias e iniciações podem ser feitas para Abians. Ser um Iyawo acabou matando essas opções.
O meu ponto aqui é o fato de que a feitura é um processo muito intrusivo na vida da pessoa. Gera muitas relações e ligações e muda o equilíbrio do axé da pessoa. As pessoas tem se preocupado em se aprofundar em liturgias sem se ocupar em saber se a pessoa esta feliz na religião que adotou, como religião.
O melhor para a vida de qualquer um é ser um Abian. Ser Iyawo é tão sério que essa opção tinha que ter registro em cartório com testemunhas.
SIM, você poder ser do Candomblé sem ter que fazer o seu Orixá. Inclusive é muito mais seguro. Entrar em uma feitura é abrir sua vida e se fragilizar. Se você fizer isso pelo motivo errado ou com a pessoa errada por ter problemas, novos, para o resto da sua vida.
O Candomblé tem que ter um modelo inspirativo. Tem que inspirar a fé, a dedicação e a transformação das pessoas para o seu melhor. Não pode ser um centro de confusões na vida da pessoa.
E mais importante. o Candomblé TEM que ser uma religião familiar. A família tem que estar junta na religião e na casa.
As pessoas falam do escando dos padres pedófilos na igreja católica. Olha na média isso é pinto visto o que se encontra nas casas por ai. Tome cuidado onde bota o seu pé limpo. Não existe controle das casas. O controle são seus olhos e ouvidos. Preste atenção e não se emburreça. Não faça nada, nem um ebó, sem saber muito bem como é aquela casa e pessoa.
Algumas recomendações simples: Não vá para casa onde o Candomblé é a própria casa da pessoa, onde ele toca no quintal ou na varanda, da obrigações em quartos, etc..
Não vá para esses candomblé urbanos todos acimentados, sem espaço para folhas e arvores. Candomblé exige um espaço especial, não é igual a Umbanda. Candomblé exige espaço dedicado, com muita preparação e assentamentos. Não se toca Candomblé em beco de vila. Não dá para Babalorixá misturar o seu espaço pessoal com o Sagrado. Se ele não tem recurso para ter uma casa de Candomblé, com terreno próprio, então não era nem para dizer que é Babalorixá.
Se a pessoa não quiser dizer a sua cronologia de obrigações ou a casa onde foi iniciado e se fez todas as obrigações lá e nome da pessoa que o iniciou, vá embora. Se a pessoa que o iniciou já morreu ou a casa já acabou e ele não tem nenhum irmão de orixá ou mais velho para dar referencia dele, então vire as costas e vá embora.
Se fosse um médico que quisesse te operar você ia fazer isso tudo.
Por fim, quero esclarecer que o objetivo desses textos sobre o Candomblé não é criticar o fácil, mas, trazer à reflexão das pessoas essas questões. Além disso, pessoas novas tem que acordar para a realidade.